O Índice Glicêmico e a Dieta da Moda

Por Muriel Hamilton Depin e Rosa Cardoso           

 

Com o crescente número de pessoas dentro da faixa do sobrepeso e obesidade, cresce também a publicação de matérias sobre perda de peso e as já famigeradas “dietas da moda”. Dentre essas está a dieta do baixo índice glicêmico – que está se tornando cada vez mais conhecida por meio da mídia.

Mas afinal de contas, o que é o Índice Glicêmico (IG)? Ele é um parâmetro usado para classificar os alimentos que contém carboidratos conforme a resposta glicêmica que estes promovem – isso em relação à resposta observada após a ingestão de um alimento de referência, que pode ser pão branco ou glicose (GUTTIERRES & ALFENAS, 2007). Já a carga glicêmica quantifica o efeito total de uma determinada porção de carboidrato sobre a glicose plasmática. Isso representa o produto do IG de um alimento pelo conteúdo de carboidrato que está disponível neste (SILVA et al., 2009).

Este índice reflete o comportamento de cada alimento quanto a sua velocidade de digestão e absorção e a resultante resposta glicêmica. Os alimentos que tem uma maior resposta apresentam alto IG, enquanto aqueles que possuem menor resposta glicêmica são considerados de baixo IG. Sendo assim, a dieta do baixo índice glicêmico consiste em consumir apenas alimentos com índice glicêmico baixo, ou seja, menor ou igual ao ponto de corte 55. Teoricamente, alimentando-se desta forma, o pico de insulina não seria tão alto e não transformaria grande parte do alimento consumido em gordura (BRAND-MILLER et al., 2003; SILVA et al., 2009). No entanto, é importante perceber que há diversos fatores que podem influenciar os IG dos alimentos, como o teor de fibras em sua composição e o método e o tempo de cocção (GUTTIERRES & ALFENAS, 2007).

Logo após ser desenvolvido por Jekins et al. em 1981, o IG passou a ser considerado como uma importante ferramenta no tratamento e no controle do diabetes mellitus (CARVALHO & ALFENAS, 2008). Estudos em diabéticos tipo 1 e diabéticos tipo 2 demonstraram que, a médio prazo, uma dieta com baixo IG esteve associada a um modesto controle glicêmico (DIAS, 2010). Porém, segundo Silva et al. (2009), o papel dessas dietas no controle glicêmico dos pacientes a longo prazo, na prevenção do diabetes, na melhora do perfil lipídico e na perda ponderal necessita de confirmação através de ensaios clínicos mais precisos.

Apesar de ser uma dieta que mostra benefícios para pacientes em determinadas condições clínicas (como no caso do diabetes mellitus), a dúvida que fica é: ela é realmente indicada para quem quer perder peso? De acordo com Bueno & Silva (2013), a relação entre o IG e o excesso de peso já foi apresentada em vários estudos observacionais. Por exemplo, um estudo de coorte prospectivo acompanhou por seis anos 185 homens e 191 mulheres, e revelou que uma dieta de baixo IG pode proteger contra o aumento de peso e de obesidade abdominal em mulheres (HARE-BRUUN et al., 2006). Já outra pesquisa, envolvendo 733 coreanos, mostrou maior tendência à obesidade nos indivíduos que disseram consumir dieta com alto IG e carga glicêmica (YOUN et al., 2012).

Há indícios que dietas de alto IG tem menor poder de saciedade, (levando a um exagero na ingestão alimentar e favorecendo o ganho de peso), podem modificar o perfil lipídico e a secreção insulínica (o que possibilita o aparecimento de doenças cardiovasculares e de diabetes mellitus). Já o consumo de dietas com baixo IG pode reduzir a secreção de hormônios contra regulatórios proteolíticos (como o cortisol e glucagon), o que estimula a síntese proteica e favorece a aumentar o teor de massa magra e a diminuir o teor de gordura corporal Porém, apesar de estudos clínicos sugerirem que o IG tem um papel importante na regulação do peso corporal, não há um consenso sobre qual seria seu real papel, já que esses estudos, em geral, apresentaram falhas metodológicas (GUTTIERRES & ALFENAS, 2007).

As dietas não devem ser seguidas somente por causa de uma afirmação em capa de revista ou matéria na televisão. Antes de iniciar qualquer dieta é importante a consulta com um nutricionista para averiguar se esta é a melhor opção levando em conta a individualidade bioquímica. Mas, o que pode ser afirmado é que não há um tratamento milagroso para a perda de peso, pois é um processo que envolve causas multifatoriais (genética, rotina, sono, etc). Sendo assim, é necessário ter cautela com as dietas para emagrecer propagadas pela mídia como estando “na moda”, pois a única coisa que sempre vai estar na moda é o bom senso e a confiança em um profissional de saúde de qualidade.

REFERÊNCIAS:

BRAND-MILLER, J.C. et al. The new glucose revolution: complete guide to glycemic index values. 3.ed. New York: Marlowe & Company; 2003.

BUENO, Sibele Picolotto; SILVA, Flávia Moraes. Dieta de baixo índice glicêmico e redução ponderal em adultos: revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados. Revista HCPA, Porto Alegre, v. 1, n. 33, p.66-79, 2013.

CARVALHO, Gisele Queiroz; ALFENAS, Rita de Cássia Gonçalves. Índice glicêmico: uma abordagem crítica acerca de sua utilização na prevenção e no tratamento de fatores de risco cardiovasculares. Rev. Nutr., Campinas, v. 21, n. 5, p. 577-587, set./out. 2008.

DIAS, Viviane Monteiro et al. Influência do índice glicêmico da dieta sobre parâmetros antropométricos e bioquímicos em pacientes com diabetes tipo 1. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v. 54, n. 9, p.801-806, dez. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/abem/v54n9/a05v54n9.pdf&gt;. Acesso em: 01 fev. 2016.

GUTTIERRES, Ana P.M.; ALFENAS, Rita de Cássia. Efeitos do índice glicêmico no balanço energético: Revisão. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v. 51, n. 3, p.382-388, abr. 2007.

HARE-BRUUN, H, et al. Glycemic index and glycemic load in relation to changes in body weight, body fat distribution, and body composition in adult Danes. Am J Clin Nutr., v. 84, p. 871-9, 2006.

SILVA, Flávia Moraes et al. Papel do índice glicêmico e da carga glicêmica na prevenção e no controle metabólico de pacientes com diabetes melito tipo 2. Arq Bras Endocrinol Metab, v. 53, n. 5, p. 560-571, 2009.

YOUN, S. et al. Association between dietary carbohydrate, glycemic index, glycemic load, and the prevalence of obesity in Korean men and women. Nutr Res., v. 32, n. 3, p. 153-9, 2012.


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