A Santificação do Óleo de Coco

Por Muriel Hamilton Depin e Even dos Santos

 

De tempos em tempos surgem na mídia matérias atribuindo a um determinado alimento as mais diversas propriedades, geralmente envolvendo a palavra “emagrecer” e “milagroso”. O óleo de coco tem recebido bastante atenção nos últimos anos por estar sendo relacionado à prevenção e tratamento de uma série de condições médicas – entre elas a obesidade. As alegações, encontradas mais frequentemente em sites e na literatura comercial o relacionaram com triglicerídeos de cadeia média afirmando que esse se comporta de forma atípica em comparação com outros alimentos ricos em gordura saturada, desta forma, sendo benéfico para a saúde humana (EYRES et al, 2016; RODRIGUES, 2012).

Mas afinal de contas, o que é o óleo de coco? É um óleo extraído (geralmente a frio) a partir da massa do Coco (C. nucifera) e sua composição apresenta elevado teor de ácidos gordos saturados (92%). O teor de saturação determina a consistência da gordura em temperatura ambiente. Contudo, o óleo de coco é uma exceção, apresentando-se líquido em temperatura ambiente devido a presença de ácidos graxos de cadeia média (AGCM), e ainda por seu principal ácido graxo ser o ácido láurico (C12:0), o qual pode ser classificado tanto como um ácido graxo de cadeia média quanto de cadeia longa (EYRES et al, 2016; RODRIGUES, 2012).

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Frente a tantas alegações midiáticas direcionadas ao consumidor, o óleo de coco acabou se tornando um produto quase “milagroso”. Entre as suas supostas atribuições estão: a indicação para a perda de peso – com a justificativa dos ácidos graxos de cadeia média (AGCM) presentes no óleo de coco não serem estocados como gordura, e terem imediata disponibilização de energia devido à rápida absorção pelo organismo (RODRIGUES, 2012); redução de gordura abdominal (HANN et al, 2014); aumento do HDL; e ainda, benefícios à saúde cardiovascular.

Mas o que é verdade e o que é discurso midiático? O que a ciência provou até agora sobre essas alegações? De acordo com o artigo recente, publicado na NutritionReviews, em 2016, apesar de o óleo de coco possuir em sua composição AGCM, as propriedades benéficas não podem ser atribuídas a esse componente, já que os triglicerídeos predominantes no óleo são diferentes em sua estrutura, absorção e metabolismo. Desta forma, a maioria destes é absorvida como ácido graxo de cadeia longa (RODRIGUES, 2012).

Estudos relacionados à saúde cardiovascular e ao consumo de óleo de coco em populações indígenas mostram que apesar da incidência de doenças cardiovasculares (DCV) ser baixa nestas populações, não é conclusivo que este resultado seja devido ao consumo do óleo, pois a alimentação também era baseada em baixo teor de açúcares e alto de fibras, resultando em baixos níveis de colesterol (EYRES et al, 2016). A falta de acurácia nos métodos entre os estudos que avaliam o risco ou prevenção de DCV com o uso de óleo de coco dificulta a obtenção de uma resposta concreta sobre seus efeitos (RODRIGUES, 2012). Além disso, um estudo realizado com 1839 mulheres demonstra que apesar da ingestão de óleo de coco aumentar os níveis de HDL, também aumentam o LDL e o nível de triglicerídeos, o que dificulta concluir se são benefícios ou malefícios que este produto pode ocasionar à saúde cardiovascular e ao perfil lipídico (EYRES et al, 2016).

Em relação à perda de peso, nenhum estudo atual comprova os benefícios do óleo de coco. Além de que, o mesmo, é uma gordura, que quando ingerida em excesso pode engordar. Por exemplo, o valor calórico de três colheres de sopa do óleo de coco (que é o indicado pelos adeptos da “Coconut diet’ para indivíduos), é de 117Kcal, com 13,6g de gordura – o que supera a quantidade de outros tipos de gordura, como a manteiga e azeite (RODRIGUES, 2012).

Diante das diversas alegações feitas sobre o óleo de coco e em relação ao seu uso para a perda de peso, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) emitiram um posicionamento oficial. Ambas as entidades não indicam o uso de óleo de coco para este fim, considerando a escassez de estudos e o baixo grau de evidência (HOHL; CERCATO, 2015).

Já para o Conselho Federal de Nutricionistas (CFN, 2015), o óleo de coco é uma importante fonte natural de gordura saturada. Contudo, o mesmo possui efeito hipercolesterolêmico, e não deve, portanto, ser prescrito para tratamento da hipercolesterolemia.

Desta forma, é essencial ter em mente que apesar de todos os seus supostos benefícios, o óleo de coco ainda é uma gordura saturada e deve ter sua ingestão restrita. Mas, ter uma alimentação saudável vai muito além do consumo adequado de gordura saturada (7% do valor calórico total da dieta). Ou ainda, de evitar gordura trans, substituir gordura saturada por monoinsaturada e poliinsaturada, aumentar o consumo de ômega 3, fibras, frutas e vegetais (RODRIGUES, 2012). A alimentação saudável e adequada é harmônica em quantidade e qualidade, com respeito às necessidades de cada fase do curso da vida, com os aspectos biológicos, socioculturais e socioeconômicos, e, com as dimensões de gênero, raça e etnia – além de priorizar a produção sustentável e com quantidades mínimas de contaminantes físicos, químicos e biológicos (BRASIL, 2013).

Portanto, quando o assunto é alimentação saudável, perda de peso e prevenção de doenças, não busque por milagres ou santos, mas sim por orientações de profissionais capacitados e informações de fontes confiáveis.

 

* Texto publicado também na Revista Nutrição InForma, feita pelo PET Nutrição UFSC.

 

REFERÊNCIAS:

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS (CFN). Óleo de Coco. 21 de agosto de 2015. Disponível em: < http://www.cfn.org.br/index.php/saiba-mais-sobre-oleos-de-coco-e-de-canola/&gt;. Acesso em: 10 ago. 2016.

EYRES, Laurence et al. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutrition Reviews, v. 74, n. 4, p. 267-80, Apr. 2016.

HANN, Vitória Boelter; MARTINS, Mariana de Souza; DIAS, Raquel da Luz. Termogênicos: uma revisão sistemática sobre o uso de óleo de coco, óleo de cártamo e cla. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo, v. 8, n. 43, p.10-19, jan. 2014.

HOHL, Alexandre; CERCATO, Cintia. Posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) sobre o uso do óleo de coco para perda de peso. Set. 2015. Disponível em: < http://www.endocrino.org.br/media/uploads/posicionamento_oficial_%C3%B3leo_de_coco_sbem_e_abeso.pdf&gt; Acesso em: 10 ago. 2016.

RODRIGUES, Alessandra. Óleo de Coco – Milagre para Emagrecer ou Mais um Modismo? Evidências em Obesidade (ABESO), n. 56, abril 2012.

 


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