Gorduras Ômega-3 e a Saúde Cerebral no Envelhecimento

Por Profa. Dra. Júlia Dubois Moreira
Mestre, Doutora e Pós-doutora em Bioquímica. Desde o mestrado, desenvolve trabalhos envolvendo o papel das gorduras ômega-3 sobre a função cerebral.

 

INTRODUÇÃO

Muito se lê e se ouve falar sobre os benefícios do consumo das gorduras ômega-3 sobre a saúde, principalmente no que se refere à saúde cardiovascular. No entanto, estas gorduras poli-insaturadas (ou ácidos graxos poli-insaturados, o termo bioquímico usado para denominá-los) tem um papel fundamental não somente para a saúde do coração e do sistema circulatório, como também atua como um potente agente anti-inflamatório e tem um papel importantíssimo sobre a saúde cerebral. Neste texto, vamos abordar os diferentes ácidos graxos ômega-3, os efeitos benéficos para a saúde como um todo e seu papel fundamental para o desenvolvimento e envelhecimento cerebral saudável.

QUEM SÃO OS ÁCIDOS GRAXOS POLI-INSATURADOS ÔMEGA-3?

Os ácidos graxos ômega-3 são gorduras que o nosso organismo não consegue produzir, então devemos ingeri-los na nossa alimentação do dia-a-dia. Eles se apresentam em alimentos de origem vegetal (como no óleo e na semente de linhaça, óleo de canola e de soja, e nas nozes) e de origem animal (em peixes como sardinha, atum, salmão, truta, alchova, cavalinha).

Todos eles são importantes para a saúde, porém o ômega-3 presente em peixes é mais ativo biologicamente, isto é, mais biodisponível para exercer suas funções no organismo, especialmente quando se fala de saúde cerebral. E por que isso acontece? Os ácidos graxos ômega-3 dos peixes já vem em sua forma final, prontos para serem incorporados aos nossos tecidos corporais, ao contrário dos que estão em alimentos de origem vegetal, que necessitam ser processados pelo fígado antes de serem biologicamente utilizados.

QUAIS A PRINCIPAIS FUNÇÕES DAS GORDURAS ÔMEGA-3 NO NOSSO CORPO?

Basicamente, as gorduras ômega-3 atuam sobre o sistema cardiovascular, o sistema imune e o sistema nervoso (o qual será abordado separadamente a seguir). E, por esta atuação sobre estes sistemas, é capaz de causar benefícios para a saúde como um todo.

Atuando no sistema cardiovascular, as gorduras ômega-3 promovem controle da concentração de gorduras que circulam no sangue, como dos triglicerídeos e colesterol sanguíneos. Também atuam como um potente anti-agregante plaquetário, que nada mais é do que a inibição da formação de coágulos que podem causar “entupimentos” nos vasos sanguíneos, melhorando a circulação sanguínea. Desta forma, as gorduras ômega-3 promovem saúde cardiovascular de maneira geral, podendo auxiliar a prevenir trobose, infartos e acidente vascular cerebral (o dito “derrame cerebral”). Por estes efeitos, pessoas que tomam medicamentos anticoagulantes devem ter cuidado ao tomarem suplementos de ômega-3 por conta própria. Estas devem consultar um nutricionista ou médico para poderem fazer o uso seguro deste tipo de suplemento alimentar.

Atuando sobre o sistema imune, estudos mostram que as gorduras ômega-3 agem como anti-inflamatórios naturais, os quais o organismo lançar mão para controlar o processo inflamatório de forma a que este não se torne exacerbado. Também podem atuar como imunossupressores, podendo ter importante papel no controle de doenças inflamatórias e autoimunes, como a asma, doenças inflamatórios intestinais, Lupus e a artrite reumatoide. Por este papel anti-inflamatório, as gorduras ômega-3 têm sido estudas como potencial aplicação clínica em alguns casos de câncer, na sepse, em doenças respiratórias, entre outras.

COMO AS GORDURAS ÔMEGA-3 ATUAM NO CÉREBRO E QUAL A SUA IMPORTÂNCIA?

O tecido cerebral, bem como a retina nos olhos, possuem altas concentrações de gordura ômega-3, sendo estes os principais destinos do ômega-3 que consumimos. Estas gorduras fazem parte das membranas celulares das sinapses* que compõe o tecido nervoso. O impulso nervoso, ou seja, a propagação de informações entre neurônios deve ocorrer o mais rápido possível para que possamos manter o bom funcionamento do cérebro e do corpo como um todo. Desta forma, pelas características moleculares das gorduras ômega-3, estas são as melhores para ocupar este local pois são as que promovem maior fluidez da membrana das sinapses, favorecendo a liberação de neurotransmissores.

As gorduras ômega-3 participam do crescimento e desenvolvimento cerebral desde o período gestacional. As gorduras ômega-3 que a mãe consome na sua alimentação passam para o bebê em desenvolvimento pela placenta e também, após o nascimento, pelo leite materno. Este período de fornecimento de ômega-3 ao tecido cerebral em formação parece ser de extrema importância para a adequada função cerebral na adolescência e vida adulta. Estudos experimentais mostram que podem ocorrer atrasos do desenvolvimento das sinapses quando a dieta materna é pobre neste tipo de gordura, com comprometimentos no comportamento e na memória dos animais na vida adulta. Em serem humanos, é sabido que o aleitamento materno exerce grande influência sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças, porém sua contribuição na saúde cerebral em idades mais avançadas ainda está em estudo.

QUAIS SÃO AS EVIDÊNCIAS DOS BENEFÍCIOS DAS GORDURAS ÔMEGA-3 PARA O ENVELHECIMENTO CEREBRAL?

Com o envelhecimento cerebral, ocorre uma redução da concentração de gorduras ômega-3 no cérebro, fato observado em tecido cerebral de animais envelhecidos e em cérebros humanos pós-morte (doados à estudos científicos). Esta redução das gorduras ômega-3 no tecido cerebral parece estar associada à redução das funções cerebrais, como redução da memória, da cognição e lentificação do raciocínio e do pensamento. Esta associação ainda não é bem estabelecida em serem humanos, porém em estudos experimentas com animais de laboratório, esta relação já foi demonstrada.

Estudos experimentais animais tentam esclarecer se a suplementação com gorduras ômega-3 na vida adulta pode reverter ou mesmo retardar a perda cognitiva e funcional do cérebro envelhecido. Alguns estudos mostram que sim é possível minimizar as perdas de memória e cognitivas decorrentes do envelhecimento. Em seres humanos, esta relação é mais nebulosa. Estudos clínicos com suplementação de ômega-3 em pequenas populações parecer trazer benefícios quanto à perda cognitiva. Porém, em estudos com populações maiores, estes resultados nem sempre se repetem. Alguns fatores podem estar influenciando os resultados destes estudos controversos, os quais seriam: 1) idade do início da suplementação; 2) dose e tempo de suplementação; 3) tipo de suplemento utilizado; e 4) status cognitivo no início da terapia de suplementação.

Independentemente destes estudos, o fato é que as gorduras ômega-3 têm um papel importante em todo o processo de desenvolvimento cerebral, desde a gestação, passando pela infância e adolescência, até a chegada da senescência/envelhecimento. Desta forma, devemos estar atentos aos alimentos que consumimos no dia-a-dia, de forma a termos presente na nossa alimentação as fontes de gorduras ômega-3.

omega-3 nas fases da vida

A ciência ainda busca esclarecer como o processo de envelhecimento cerebral ocorre, porque as funções cerebrais vão sendo reduzidas em alguns indivíduos, porque alguns desenvolvem doenças cerebrais como demência e a Doença de Alzheimer, e de que forma se pode prevenir o aparecimento destas alterações, para que o cérebro envelheça de forma mais saudável e com menores perdas. Nesta perspectiva, as gorduras ômega-3 são importantes aliados da saúde como um todo, principalmente a saúde cerebral.

*Sinapse é o local de contato entre neurônios onde ocorre a liberação de neurotransmissores para a propagação do impulso nervoso, ou seja, a transmissão de informações entre os neurônios. 

 

REFERÊNCIAS:

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