Ômegas 3 e 6: você sabe a diferença?

Por Andressa B. Pedroso e Karine Kahl

Os lipídeos são macronutrientes essenciais ao organismo, exercendo importantes funções para o correto funcionamento do corpo. Alguns exemplos são a geração e estocagem de energia e estruturação celular.  São encontrados em sua forma mais simples como ácidos graxos, que se constituem de uma cadeia carbônica saturada (sem duplas ligações entre os carbonos), monoinsaturada (que possui apenas uma dupla ligação) ou poli-insaturada – possuindo duas ou mais ligações duplas. Os que se encontram dentro desta última classificação são subdivididos, por fim, em ácidos graxos ômega-3 e ômega-6, de acordo com a localização de suas duplas ligações (BAYNES; DOMINICZAK, 2010)1.

Esses ácidos graxos possuem a cadeia longa – com mais de dezoito átomos de carbono, tendo insaturações enumeradas a partir do grupo metil terminal. Desse modo, o ácido linoleico (AL) possui a primeira instauração no carbono 6, e o ácido alfa linolênico (ALA), no carbono 3, dando origem às respectivas nomenclaturas. As principais gorduras dessa família são os ácidos araquidônico (AA), eicosapentaenoico (EPA) e docosaexaenoico (DHA), os quais desempenham importantes funções no funcionamento do cérebro e da retina, por exemplo (MARTIN et al, 2006)2.

O consumo de AL e ALA, deu-se logo no início da vida humana e há aproximadamente 10.000 anos os dois eram ingeridos em quantidades muito parecidas (razão de 2:1), sendo este equilíbrio essencial para a saúde humana. Porém, a mudança nos hábitos alimentares, especialmente dentro da dieta ocidental, elevou o consumo do LA em relação ao ALA, numa razão de 25:1, tornando-o o mais consumido ácido graxo de cadeia poli-insaturada na dieta (SIMOPOULOS, 2000)3. Ele possui quatro principais destinos no corpo: é utilizado como fonte de energia; pode ser esterificado e formar outros lipídeos, tais como triglicerídeos e fosfolipídeos; é componente estrutural da membrana celular, mantendo sua fluidez; e também, ao sair da membrana celular, pode ser oxidado por enzimas e formar moléculas envolvidas na sinalização celular (WHELAN; FRITSCHE, 2013)4.

É dependente do LA, também, a formação do ácido araquidônico que será convertido nos eicosanoides responsáveis pela resposta inflamatória (WHELAN; FRITSCHE, 2013)4. Desta forma, com a conversão deste ácido graxo em ácido araquidônico, e deste em eicosanoides específicos (como prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), pode ser gerado um quadro de inflamação, a qual é base para diversas doenças crônicas, tais como câncer, diabetes, osteoporose, doença coronariana e desordens mentais (SIMOPOULOS, 20003; SIMOPOULOS, 20085).

O DHA, principal exemplo de ALA, tem importante função na formação, desenvolvimento e funcionamento do cérebro e da retina. Nesta última, encontra-se ligado aos fosfolipídios que estão associados à rodopsina, uma proteína que interage no processo de absorção da luz. A diminuição dos níveis desse ácido graxo nos tecidos da retina tem sido associada, em recém-nascidos, com anormalidades no desenvolvimento do sistema visual, e em adultos, com a diminuição da acuidade visual (MARTIN et al, 2006)2.

omega 3 e 6 2

De acordo com Simopoulos (2000), a ingestão de DHA e EPA leva a diminuição na produção de prostaglandinas e tromboxanos, além do aumento da prostaciclina, a qual desencadeia diminuição na agregação de plaquetas. Os efeitos hipolipidémico, antitrombótico, anti-inflamatório do ômega 3 têm sido estudados com modelos animais, em culturas de tecidos e em células. Alguns estudos demonstraram que esses ácidos graxos podem funcionar como importantes moléculas de sinalização celular. Também se observou que eles podem alterar rapidamente a transcrição gênica.

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 2010), há evidências de que o n-3 pode contribuir para a prevenção de Doenças Cardiovasculares e outras doenças degenerativas, e de que a sua suplementação está relacionada à redução de citocinas e aumento da peroxidação lipídica. Embora proponha um valor limite para ingestão diária (2g/dia), coloca que ainda não existem evidências que comprovem efeitos adversos quando consumido em altas quantidades.

Em seu estudo, Simopolous (2008) coloca a razão n6/n3 como fator determinante sobre a redução do risco de aparecimento de doenças coronarianas. Também conclui que o alto consumo de LA leva à oxidação do LDL, agregação plaquetária e interfere na incorporação do EPA na membrana fosfolipídica, enquanto o consumo de ALA pode ajudar a prevenir o desenvolvimento de doenças crônicas em função de sua ação anti-inflamatória, quando inserido na dieta levando em consideração questões genéticas e os múltiplos fatores que levam a quadros inflamatórios. A FAO (2010), entretanto, coloca que ainda são limitadas as evidências para que se proponha uma razão de ingestão entre n3 e n6, recomendando apenas que a sua ingestão esteja dentro dos valores diários.

A Ingestão Diária de Referência (DRI, 2005)7 para homens adultos dos ômegas 3 e 6 são, respectivamente, 1,6 e 1,7g por dia. Uma colher de sopa de semente de linho, uma colher de sopa de óleo de canola ou duas colheres de sopa de óleo de mostarda já são suficientes para atingir a recomendação de ALA diária. Já para o AL, 1 ½ colher de sopa de óleo de noz, de amendoim ou de abacate cobrem o valor necessário para essa gordura (BRASIL, 2012)8. É importante lembrar que peixes, oleaginosas, alguns grãos e outros óleos possuem teores consideráveis de n-3 e n-6 e que, com uma dieta balanceada onde se ingere pequenas quantidades de cada grupo alimentar, é fácil consumir os valores citados acima.

 

REFERÊNCIAS:

1 BAYNES, J. W.. Carboidratos e Lipídeos. In: BAYNES, J. W.; DOMINICZAK, M. H. (Org.). Bioquímica Médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. Cap. 3. p. 103-110.

2 MARTIN, Clayton Antunes et al . Ácidos graxos poliinsaturados ômega-3 e ômega-6: importância e ocorrência em alimentos. Rev. Nutr.,  Campinas ,  v. 19, n. 6, Dec.  2006 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732006000600011&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em  06  Fev.  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732006000600011.

3 SIMOPOULOS, A. P.. Symposium: role of poultry products in enriching the human diet with n-3 PUFA.: Human Requirement for n-3 Polyunsaturated Fatty Acids. Poultry Science, Washington, v. 79, p.961-970, abr. 2000.

4 WHELAN, J; FRITSCHE, K. American Society For Nutrition. Linoleic Acid. Advances In Nutrition. Washington, p. 311-312. 2013. Disponível em: <http://advances.nutrition.org/content/4/3/311.full.pdf+html&gt;. Acesso em: 06 fev. 2015.

7 Institute of Medicine. Dietary Reference Intakes (DRIs): Estimated Average Requirements. Disponível em: <http://fnic.nal.usda.gov/dietary-guidance/dietary-reference-intakes&gt;. Acesso em: 06 fev. 2015.

5 SIMOPOULOS, A. P.. The omega-6/omega-3 fatty acid ratio, genetic variation, and cardiovascular disease. The Center For Genetics, Nutrition And Health, Washington, Dc, v. 17, p.131-134, 2008.

8 BRASIL. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. . Tabela de Composição Química de alimentos. 2012. Disponível em: <http://www2.unifesp.br/dis/servicos/nutri/public/&gt;. Acesso em: 06 fev. 2015.

* Esse texto foi publicado originalmente na Revista Nutrição InForma, do grupo Pet Nutrição. Você pode acessar a revista aqui!

 

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s