Nutrição na Doença Renal Crônica

Por Angela Teodósio da Silva
Nutricionista – CRN10 4601 / Mestre em Nutrição / Doutoranda em Nutrição- PPGN/UFSC

 

Quais são as funções dos rins?

Os rins são dois órgãos em forma de grão de feijão, localizados em ambos os lados da coluna vertebral, atrás das últimas costelas. Dentre as suas funções essenciais destacam-se: a manutenção  constante do equilíbrio hídrico do organismo, por meio da eliminação do excesso de água, sais e eletrólitos, evitando, assim, o aparecimento de edemas (inchaços) e aumento da pressão arterial; a  excreção de produtos finais do metabolismo, como a ureia e o ácido úrico; a excreção de substâncias, como medicamentos; a produção e secreção de hormônios que atuam na regulação hemodinâmica sistêmica e renal; a maturação de hemácias na medula óssea e a regulação do balanço cálcio e fósforo e do metabolismo ósseo.

 

O que é a doença renal crônica?

            A doença renal crônica (DRC) é uma síndrome complexa caracterizada por lesão renal e perda progressiva e irreversível da função dos rins. É um grave problema de saúde pública, de acordo com dados deste ano (2017), estima-se que sua prevalência mundial esteja em torno de 10%, ou seja, uma a cada dez pessoas é portadora da doença.

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A doença é caracterizada pela redução na taxa de filtração glomerular (TFG), que é o principal mecanismo de excreção de produtos tóxicos pelo organismo. Com base na TFG e em marcadores da lesão renal, a DRC é classificada em seis estágios, com progressivo comprometimento da função renal.

Os sintomas mais conhecidos da doença são: hipertensão arterial, urina com sangue, urina com espuma (presença de proteínas na urina), edemas, eliminação de urina muito clara (como água), anemia (palidez, cansaço, dor no peito e sonolência). Quando a enfermidade está muito avançada, pode haver perda do apetite, náuseas, vômitos, cãibras, prurido (coceira), perda de memória, falta de concentração, tremores, insônia ou sonolência.

Nos estágios mais avançados da doença, quando a função renal está muito comprometida, pode ser indicada uma terapia renal substitutiva. Na DRC, as opções terapêuticas incluem a diálise (hemodiálise ou diálise peritoneal) e o transplante renal. Cada uma apresenta vantagens, limitações e impactos distintos sobre a saúde física, psicológica e social dos pacientes.

 

Quais os principais fatores de risco?

A hipertensão arterial sistêmica (pressão alta) não tratada e o diabetes mellitus descompensado são os principais fatores de risco para as doenças renais. Além disso, a presença de doenças cardiovasculares, idade acima de 60 anos e história familiar de doenças renais na família também são importantes fatores de risco. A presença de proteinúria (proteínas na urina), obesidade, dislipidemia e tabagismo aceleram a progressão da doença renal independente do seu estágio.

 

Como prevenir?

Para a prevenção da DRC é importante adotar uma alimentação saudável; limitar a quantidade de sal/sódio de toda procedência; aumentar o consumo de frutas, legumes, verduras, cereais integrais e leguminosas; beber no mínimo de 1,5 a 2,0 litros de água por dia; não fumar; não utilizar medicamentos sem orientação médica; praticar atividade física; manter o equilíbrio energético e o peso saudável; controlar a glicemia e a pressão arterial.

 

Quais os objetivos da terapia nutricional na doença renal crônica?

A partir do momento que a doença renal já está estabelecida a terapia nutricional tem como objetivos retardar o ritmo de progressão da doença; atenuar as manifestações da síndrome urêmica, como náusea e fraqueza; auxiliar no tratamento das complicações metabólicas e hormonais consequentes da redução da função renal, como por exemplo, hiperparatireoidismo secundário, anemia, dislipidemia; e manter ou adequar o estado nutricional.

 

Terapia nutricional na fase não dialítica

Na fase não dialítica, quando o paciente ainda não está realizando diálise o objetivo principal é retardar ao máximo a perda das funções renais. Sendo assim, é prescrita uma dieta com reduzido teor de proteínas, variando na maioria dos casos entre 0,6 a 0,8g/kg/dia, visando diminuir a carga sobre os néfrons (unidade funcional do rim) remanescentes. Também pode ser empregada uma dieta muito restrita em proteínas, que apresenta em torno de 0,3g/kg/dia de proteínas suplementada com aminoácidos essenciais ou cetoácidos. No entanto esta última modalidade apresenta diversas limitações, como, a dificuldade de aderência a longo prazo, por ser essencialmente vegetariana, o custo elevado dos suplementos de aminoácidos essenciais/ cetoácidos e o grande número de compridos que devem ser ingeridos por dia

 

Terapia nutricional na hemodiálise ou diálise peritoneal

            A partir do momento que o paciente inicia tratamento de diálise crônica, é necessário aumentar a quantidade de proteínas da dieta para em torno de 1,2 g/kg/dia para pacientes em hemodiálise e 1,3 g/kg/dia para pacientes em diálise peritoneal.  A necessidade proteica é maior do que a para a população no geral para compensar a perda de aminoácidos e peptídeos durante a diálise e a proteólise muscular que é induzida pela diminuição das concentrações plasmáticas desses nutrientes.

 

Como deve ser a ingestão de líquidos de pacientes em hemodiálise ou diálise peritoneal?

A quantidade de líquidos que pessoas em diálise podem consumir varia de acordo com a quantidade de urina que cada um produz por dia, sendo orientada de modo individual pelo nutricionista ou médico. Como os rins não estão funcionando corretamente, os líquidos se acumulam facilmente no corpo, por isso a quantidade deve ser controlada.

Algumas dicas para controlar o consumo de líquidos: usar copos e xícaras pequenas; beber apenas quando tiver sede; evitar alimentos salgados; colocar uma pedra de gelo na boca; colocar suco de limão para congelar em uma forma de gelo e chupar uma pedra quando sentir sede; fazer bochechos com água quando sentir sede, mas não engolir.

 

Quais são os principais micronutrientes que devem ser controlados no manejo dietético de pessoas com doença renal crônica?

Potássio: É comum que os pacientes apresentem hiperpotassemia ou hipercalemia, pois com a diminuição da função renal, a habilidade em manter as concentrações séricas de potássio dentro da taxa de normalidade é comprometida. Sendo assim, devem ser preferidas as frutas e hortaliças com menor teor de potássio. Os pacientes devem ser orientados a realizar o seguinte procedimento com os alimentos fonte de potássio: deixá-los submersos em água por 2 horas; escorrer e enxaguá-los em água corrente; cozinhá-los e descartar a água do cozimento; no preparo das sopas, as hortaliças devem ser cozidas em água, que será descartada, e uma nova água deverá ser acrescentada para finalizar a preparação.

Fósforo: A hiperfosfatemia é uma condição bastante frequente nos pacientes com DRC. A base do tratamento da hiperfosfatemia consiste no controle da ingestão alimentar de fósforo e na utilização de quelantes de fósforo. Deve-se priorizar a ingestão de alimentos proteicos com baixa razão fósforo/proteína de acordo com a necessidade individual. A ingestão de alimentos ricos em fósforo como miúdos, refrigerantes à base de cola, cervejas e alimentos industrializados deve ser desaconselhada.

Sódio: O controle da ingestão de sódio é fundamental para melhor controle da pressão arterial e fundamental para a diminuição da sede. Quanto maior a ingestão de sódio, maior é a de líquidos e consequentemente, o peso acumulado entre uma sessão de diálise e outra. Deve-se orientar os pacientes a cozinhar os alimentos sem sal e, quando o prato estiver pronto, acrescentar 1 colher de café rasa (1g de sal); não utilizar ou consumir apenas esporadicamente e em pequenas quantidades: tabletes de caldos, molho de soja, glutamato monossódico, molhos e temperos prontos, embutidos, conservas, enlatados e alimentos industrializados e preferir temperos naturais, como, alho, cebola, orégano, salsinha, cebolinha, alecrim, manjericão, louro, tomilho, entre outros.

 

Existe algum alimento que não deve ser consumido por pessoas com doença renal crônica?

A ingestão de carambola in natura ou em qualquer tipo de preparação (suco, doces, sorvetes, etc.) pode provocar neurotoxicidade em pacientes com DRC em todos os estágios da doença, devido a presença de uma neurotoxina normalmente depurada pelos rins, chamada caramboxina. Como os rins não filtram adequadamente, ocorre um acúmulo dessa substância no organismo, o que pode levar a manifestações clínicas que variam desde crises de soluço, vômitos, confusões mentais, insônia, diminuição da força muscular, coma, convulsões e sem tratamento pode levar a morte.

 

Referências Bibliográficas:

INTERNATIONAL SOCIETY OF NEPHROLOGY. ISN Global Kidney Health Atlas. 2017.

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NERBASS, F.B; CUPPARI, L. Hemodiálise. In: CUPPARI, L.; AVESANI, C. M.; KAMIMURA, M.A. Nutrição na doença renal crônica. 1 ed. Barueri: Manole, 2013.

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SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTEAL E ENTERAL; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NUTROLOGIA. Terapia Nutricional para Pacientes na Fase Não-Dialítica da Doença Renal Cônica. Projeto Diretrizes, 2011.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTEAL E ENTERAL; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NUTROLOGIA. Terapia Nutricional para Pacientes em hemodiálise crônica. Projeto Diretrizes, 2011.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTEAL E ENTERAL; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NUTROLOGIA. Terapia Nutricional para pacientes com insuficiência renal crônica em diálise peritoneal. Projeto Diretrizes, 2011.


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