O que é o Comer Transtornado?

Por Muriel Hamilton Depin

 

Com o paradoxo alimentar atual, caracterizado por uma grande oferta e incentivo de consumo de alimentos vs. ideais de magreza inalcançáveis, é cada vez mais frequente as atitudes alimentares inadequadas, a compulsão alimentar e métodos inadequados de controle de peso – como a restrição alimentar, exercício físico excessivo e práticas purgativas, como o uso de remédios para emagrecer sem indicação médica, laxantes, diuréticos e até mesmo vômitos auto induzidos.1 Tais comportamentos não estão presentes apenas em quadros clínicos de Transtornos Alimentares (TA). Eles são mais prevalentes que os TA e são denominados “comportamentos de risco para TA” – o que tem sido chamado de comer transtornado.2,3

DEFINIÇÃO

Para a Associação Dietética Americana, o comer transtornado pode apresentar uma série de sintomas, desde a restrição alimentar até condições parciais de TA e, em seguida, a manifestações completas de transtornos alimentares.4

O comer transtornado pode ser definido como uma ampla gama de problemas alimentares (comportamentos disfuncionais visando determinado peso ou forma física, ou as práticas inadequadas para perda ou controle de peso), que, por acontecerem com menor frequência e intensidade, não se encaixam nos critérios de diagnóstico de um TA específico.1

COMER TRANSTORNADO vs. TRANSTORNOS ALIMENTARES

Os transtornos alimentares (TA), como anorexia nervosa (AN) ou bulimia nervosa (BN), são diagnosticados de acordo com critérios pré-estabelecidos por manuais de diagnóstico psiquiátricos – o que exclui grande parte das pessoas que sofrem com o comer transtornado. Muitos indivíduos com sintomas alimentares transtornados são diagnosticados com Transtorno Alimentar Não Especificado (TANE), que é o termo usado para aqueles casos que não preenchem critério para transtorno específico – incluindo quadros parciais de AN ou BN. Porém, o TANE também possui critérios específicos que devem ser atendidos para que o indivíduo tenha esse diagnóstico – e, esses critérios estão se estreitando. 5

A diferença mais significativa entre um transtorno alimentar e o comer transtornado está nos sintomas e experiências, e se estes se alinham ou não com os critérios estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria. O comer transtornado é uma frase descritiva, não um diagnóstico – ou seja, é constituído por comportamentos alimentares disfuncionais que não fecham um diagnóstico clássico de TA. Dessa forma, enquanto muitas pessoas que possuem padrões alimentares transtornado podem se adequar aos critérios para TANE, também é possível ter padrões alimentares transtornados que não se enquadram nos critérios atuais de nenhum diagnóstico de TA.5

SINAIS E SINTOMAS

Os sinais e sintomas do comer transtornado podem incluir os seguintes comportamentos: a prática de dieta crônica; flutuações de peso frequentes; regime de exercícios e alimentação extremamente rígido e não saudável; sentimento de culpa e vergonha quando incapaz de manter os hábitos alimentares ou exercícios; preocupação constante com alimentos, corpo e exercício, ao ponto de causar angústia e ter impacto negativo na qualidade de vida; alimentação compulsiva ou motivada emocionalmente; e o uso de medidas purgativas/compensatórias – como exercício em demasia, restrição alimentar, jejum, vômitos auto induzidos, e, o uso de laxante para “compensar” os alimentos consumidos.5 Cabe ressaltar que os comportamentos do comer transtornado não estão limitados a apenas estes relatados, podendo se manifestar de forma diferente em cada indivíduo.

PREVALÊNCIA

Em estudos nacionais, com adolescentes e mulheres jovens, observou-se que a prevalência ou frequência de comportamento de risco para TA variou de 1,1 a 39,04%.2,3 Já nos EUA, verificou-se que de 50 a 80% das adolescentes e mulheres tem hábitos, crenças e sentimentos inadequados em relação à alimentação, ou comer transtornado. Entre os comportamentos está a necessidade de controle extremo da alimentação a restrição de calorias e de nutrientes (como o carboidrato ou mesmo gorduras), o hábito de pular refeições, a presença de excessos ou compulsões alimentares, e, sentimento de culpa e remorso após a ingestão de um alimento que julga como proibido ou não saudável.6

 

CONCLUSÃO

Muitas das pessoas que possuem o comer transtornado minimizam ou não percebem completamente o impacto que estes comportamentos têm em sua saúde mental e física. As consequências podem incluir um maior risco de obesidade e transtornos alimentares, perda óssea, distúrbios gastrointestinais, desequilíbrios eletrolíticos e fluidos, baixa frequência cardíaca e pressão arterial, aumento da ansiedade e depressão, bem como o isolamento social.5

Portanto, é possível perceber que os comportamentos alimentares transtornados que não se encaixam em um diagnóstico específico de TA também merecem atenção e tratamento, pois muitas vezes se transformam em transtornos mais problemáticos, e, colocam o indivíduo em risco de graves problemas de saúde.5 É recomendado que o tratamento envolva a participação de um nutricionista comportamental e/ou psicólogo especializado, visando a construção de uma relação mais saudável e tranquila com a alimentação e com o corpo. 

 

REFERÊNCIAS:

1 DUNKER, Karin et al. Nutrição Comportamental na prevenção conjunta da obesidade e comer transtornado. In: ALVARENGA, Marle et al. (Org.). Nutrição Comportamental. Barueri, SP: Manole, 2015. p. 445-464.

2 ALVARENGA, Marle dos Santos et al. Comer transtornado entre universitárias brasileiras. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v .29, n .5, pp. 879-888, maio. 2013.

3 LEAL, Greisse Viero da Silva et al. O que é comportamento de risco para transtornos alimentares em adolescentes? J. Bras. Psiquiatr., Rio de Janeiro, v. 62, n.1, pp. 62-75, jan. 2013.

4 AMERICAN DIETETIC ASSOCIATION. Position of the American Dietetic Association: Nutrition Intervention in the Treatment of Eating Disorders. J Am Diet Assoc., v. 111, n. 1, pp. 1236-1241, 2011.

5 ANDERSON, Marci. What Is Disordered Eating? Eat Right, 25 feb., 2015. Disponível em: <http://www.eatright.org/resource/health/diseases-and-conditions/eating-disorders/what-is-disordered-eating&gt;. Acesso em 10 ago. 2017.

6 NEUMARK-SZTAINER, Dianne et al. Weight-related concerns and behaviors among overweight and nonoverweight adolescents: implications for preventing weight-related disorders. Arch Pediatr Adolesc Med., v. 156, n. 2, pp. 171-178, fev. 2002.

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s