A armadilha da perda de peso: por que sua dieta não está funcionando

Escrito por Alexandra Sifferlin
Adaptado por Muriel Hamilton Depin e Profa. Dra. Débora Kurrle Rieger Venske

Esta é uma versão traduzida e resumida da matéria de capa da Revista americana Time, The Weight Loss Trap: Why Your Diet Isn’t Working, de maio de 2017. Para ler a matéria completa, em inglês, clique aqui.

capa

Como a maioria das pessoas, Kevin Hall costumava pensar que a razão pela qual as pessoas engordam é simples. “Por que eles simplesmente não comem menos e exercitam mais?” Como físico, a lógica de calorias ingeridas vs. calorias gastas para perda de peso sempre fez sentido para ele. Mas então, sua própria pesquisa – com participantes em uma série de reality show – provou que ele estava errado.

Hall, cientista do National Institutes of Health (NIH) – Institutos Nacionais de Saúde dos EUA – começou a assistir a série “The Biggest Loser” há alguns anos por recomendação de um amigo. “Eu vi pessoas subindo na balança e perdendo 9 kg por semana”, disse o pesquisador. Se por um lado, adotando crenças generalizadas sobre a perda de peso, era lógico que os homens e as mulheres emagrecessem com exercícios punitivos e dietas restritivas, ainda assim, o peso perdido em apenas uma semana era muito grande. Para entender como isto acontecia, ele decidiu estudar 14 dos participantes para posterior escrita de um artigo científico.

Hall verificou que a perda de peso foi real, rápida e enorme. Ao longo da temporada, os concorrentes perderam uma média de 57kg cada e cerca de 64% de sua gordura corporal. Ele pensou que, se seu estudo pudesse descobrir o que estava acontecendo fisiologicamente nos corpos dessas pessoas, talvez pudesse ajudar os 71% dos adultos americanos com excesso de peso.

O que ele não esperava descobrir era que mesmo quando as condições para a perda de peso são perfeitas, como ocorre na TV – com um treinador motivador, médicos telegênicos, planos de refeição rigorosos e duros exercícios – o corpo, a longo prazo, luta muito para recuperar a gordura. Ao longo do tempo, 13 dos 14 participantes que Hall estudou ganharam em média 66% do peso que perderam no show, e, quatro engordaram mais ​​do que antes da competição.

Encontrar respostas para o quebra-cabeça da perda de peso nunca foi mais crítico, 40% da população americana é obesa e sabe-se que o excesso de gordura corporal aumenta dramaticamente o risco de sérios problemas de saúde. Isso alimentou uma indústria de perda de peso no valor de US $ 66,3 bilhões, vendendo de tudo, desde pílulas dietéticas até planos de refeições. Mas também impulsionou o aumento da pesquisa científica no tema e está dando aos cientistas uma nova compreensão de por que a perda de peso é tão difícil, porque manter o peso ao longo do tempo é ainda mais difícil e por que a ciência da perda de peso parece ás vezes funcionar apenas para algumas pessoas.

Os principais pesquisadores finalmente concordam, por exemplo, que o exercício, embora importante para uma boa saúde, não é uma maneira especialmente confiável de perder a gordura corporal a longo prazo. E a aritmética excessivamente simplista de calorias ingeridas versus calorias gastas deu lugar à compreensão de que é a composição da dieta de uma pessoa – ao invés de quanto ela pode ‘queimar’ praticando exercício – que sustenta a perda de peso.

Eles também sabem que a melhor dieta para você provavelmente não é a melhor dieta para seu vizinho. As respostas individuais a diferentes dietas variam enormemente. “Algumas pessoas em um programa de dieta perdem cerca de 30kg e mantêm isso por dois anos, e outras pessoas seguem o mesmo programa religiosamente e ganham 2kg”, diz Frank Sacks, pesquisador referência em perda de peso e professor de Prevenção de Doenças cardiovasculares na Escola de Saúde Pública de Harvard. “Se podemos descobrir o porquê, o potencial para ajudar as pessoas será enorme”.

Hall, Sacks e outros cientistas estão mostrando que a chave para a perda de peso parece ser altamente personalizada ao invés de baseada em dietas na moda. E, embora a perda de peso nunca seja fácil para ninguém, as evidências indicam que qualquer um pode alcançar um peso saudável – as pessoas só precisam encontrar o seu melhor caminho para chegar lá.

O conceito de calorias como uma unidade de energia havia sido estudado e compartilhado em círculos científicos em toda a Europa há algum tempo, mas foi após a Primeira Guerra Mundial que a contagem de calorias se tornou imprescindível nos EUA. Em meio à escassez mundial de alimentos, o governo americano precisava de uma maneira de encorajar as pessoas a reduzirem a ingestão de alimentos, por isso emitiu sua primeira “dieta científica” para os americanos, que teve seu foco nas calorias. Nas décadas seguintes, quando ser magro se tornou cada vez mais desejável, quase todos os conselhos de dieta indicavam a realização de refeições com baixas calorias como estratégia nutricional. Mas foi apenas na década de 1960 que a comercialização maciça de dietas nos EUA teve início.

O que a maioria das dietas tinha em comum era uma ideia que é popular até hoje: coma menos calorias e você vai perder peso. Mesmo a febre da dieta de baixo teor de gordura (low fat) que começou no final da década de 1970 (que se baseou na noção intuitiva, mas incorreta, de que comer gordura fará você gordo) dependia do modelo de contagem de calorias. A lógica dessa dieta sugere que, se você comer menos alimentos gordurosos, que são mais densos em calorias, você consumirá menos calorias em geral, e então irá perder peso – no entanto, não foi o que aconteceu. A tendência desse tipo de dieta coincidiu com o aumento de peso na população. Em 1990, adultos com obesidade constituíam menos de 15% da população dos EUA. Em 2010, a maioria dos estados relatava obesidade em 25% ou mais de suas populações. Hoje, isso aumentou para 40% da população adulta. Para crianças e adolescentes, esta porcentagem é de 17%.

Pesquisas como a de Hall começaram a explicar por que isso ocorreu. Por mais desanimadores que sejam os seus resultados iniciais, eles não foram completamente surpreendentes: mais de 80% das pessoas com obesidade que perdem peso engordam novamente. Isso porque, quando você perde peso, seu metabolismo em repouso ( energia utilizada pelo corpo quando está em repouso) diminui – possivelmente um resquício evolutivo, dos dias em que a escassez de alimentos era comum para a espécie humana.

O que Hall descobriu, no entanto – e o que realmente o surpreendeu – foi que, mesmo quando os participantes do The Biggest Loser ganharam parte do peso perdido, seu metabolismo em repouso não aumentou. Em vez disso, manteve-se baixo, queimando cerca de 700 calorias a menos por dia do que antes de começar a perder peso no programa de TV. Os participantes deste programa perderam uma enorme quantidade de peso em um período de tempo relativamente curto (o que reconhecidamente não é a maneira que a maioria dos médicos recomenda que você perca peso), mas o que a pesquisa mostra é que a mesma redução do metabolismo observada neles também tende a acontecer com pessoas comuns que fazem dieta. A maioria das pessoas que perdem peso ganha de volta o peso perdido, em uma taxa de 1 a 2 quilos por ano.

Para os 2,2 bilhões de pessoas em todo o mundo com excesso de peso, as descobertas de Hall podem parecer uma fórmula para o fracasso – e, ao mesmo tempo, uma reivindicação científica. Essas descobertas mostram que é realmente a biologia, não simplesmente falta de força de vontade, que torna tão difícil a perda de peso. Os resultados também fazem parecer que o próprio corpo sabotará qualquer esforço para manter uma perda de peso a longo prazo.

Mas um metabolismo mais lento não é a história completa. Apesar das armadilhas biológicas, há muitas pessoas que conseguem perder peso e estabilizar. Segundo Hall, se pessoas fossem aleatoriamente divididas em um grupo que seguiria uma dieta baixa em carboidratos e outro que seguiria uma dieta com baixo teor de gordura, e os acompanhasse por alguns anos, a perda média de peso não seria diferente entre os dois grupos. Mas dentro de cada grupo, haveria pessoas muito bem-sucedidas, pessoas que não perderiam peso e pessoas que ganhariam peso. Compreender por que uma dieta funciona para uma determinada pessoa, e, para outras não, continua a ser o Santo Graal da ciência da perda de peso. Mas os especialistas estão se aproximando deste entendimento.

O motivo exato do por que a perda de peso pode variar tanto entre pessoas seguindo o mesmo plano alimentar, ainda é uma questão aberta. Alguns cientistas especulam que possa ser a genética das pessoas.

 

GENÉTICA

Ao longo dos últimos anos, os pesquisadores identificaram quase 100 marcadores genéticos que parecem estar ligados à obesidade ou ao excesso de peso, e, não há dúvida de que os genes desempenham um papel importante na forma como algumas pessoas usam as calorias e armazenam a gordura. Mas os especialistas estimam que os genes relacionados à obesidade representem apenas 3% das diferenças entre o peso das pessoas – e os mesmos genes que predispõem as pessoas ao ganho de peso já existiam há 30 e há 100 anos atrás, sugerindo que os genes sozinhos não podem explicar o rápido aumento da obesidade.

Além disso, um estudo recente com 9.000 pessoas mostrou que o fato de uma pessoa carregar uma variação genética associada ao ganho de peso, não influencia na sua capacidade de perder peso. “Para nós esta é uma boa notícia”, diz o autor de estudo John Mathers, professor de nutrição humana na Universidade de Newcastle. “Uma carga genética que torna mais provável que você tenha obesidade não deve ser o fator que irá prejudicar sua perda de peso.”

 

DISRUPTORES ENDÓCRINOS

Outra área que tem deixado alguns cientistas entusiasmados é a questão de como o ganho de peso está ligado a produtos químicos que estamos expostos todos os dias como o Bisfenol A (BPA), encontrado em revestimentos de recipientes de alimentos enlatados e em recibos de caixas registradoras como os resíduos de pesticidas em nossos alimentos e os ftalatos encontrados em plásticos e cosméticos. O que esses produtos químicos (também conhecidos como disruptores endócrinos) têm em comum é a capacidade de imitar os hormônios humanos. Alguns cientistas estão preocupados de que eles possam estar causando estragos no delicado sistema endócrino, levando ao armazenamento de gordura.

De acordo com o Dr. Leonardo Trasande, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, o antigo paradigma era que a alimentação e a falta de exercício eram as únicas causas da obesidade, mas agora se entende que as exposições químicas são um fator importante na origem da epidemia de obesidade. Os produtos químicos podem perturbar hormônios e o metabolismo, o que pode contribuir para doenças e incapacidades.

 

MICROBIOMA

Outra fronteira que cientistas estão explorando é como o microbioma (os trilhões de bactérias que vivem dentro e na superfície do corpo humano), pode estar influenciando a maneira como o corpo metaboliza determinados alimentos. Dr. Eran Elinav e Eran Segal, pesquisadores do Projeto de Nutrição Personalizada no Weizmann Institute of Science, em Israel, acreditam que a variação no sucesso da dieta pode estar na forma como os microbiomas das pessoas reagem a diferentes alimentos.

Em um estudo de 2015, Segal e Elinav deram a 800 homens e mulheres aparelhos que mediam seus níveis de açúcar no sangue a cada cinco minutos por um período de uma semana. Os participantes preencheram questionários sobre sua saúde, forneceram amostras de sangue e fezes e tiveram seus microbiomas sequenciados. Também utilizaram um aplicativo para celular para registrar o consumo alimentar, o sono e o exercício físico. Os pesquisadores descobriram que os níveis de açúcar no sangue variaram amplamente entre as pessoas depois de comerem, mesmo quando comeram exatamente a mesma refeição. Isso sugere que as recomendações generalizadas do que comer podem não ter sentido.

Os pesquisadores desenvolveram um algoritmo para cada pessoa no teste usando os dados que eles reuniram e descobriram que poderiam prever com precisão a resposta glicêmica a um determinado alimento com base em seu microbioma. É por isso que Elinav e Segal acreditam que a próxima fronteira da ciência da perda de peso está no intestino.

 

PERDA DE PESO REALISTA E SUSTENTÁVEL

Quando as pessoas são convidadas a imaginar seu tamanho perfeito, muitas sonham com uma perda de peso até três vezes maior do que o que seria recomendado pelos médicos. Considerando o quão difícil pode ser a perda de peso idealizada, não é surpresa que muitas pessoas desistam completamente de tentar.

Mas a maioria das pessoas não precisa perder tanto peso para melhorar sua saúde. Pesquisas mostram que com uma perda de apenas 10% de seu peso, já é possível verificar mudanças notáveis na pressão arterial e controle glicêmico – reduzindo risco de doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2.

Para Jody Jeans, de Ottawa, reavaliar suas expectativas foi o que a ajudou a finalmente perder peso de maneira saudável e sustentável. Segundo ela, as pessoas podem olhá-la e ver alguém que ainda poderia perder alguns quilos, mas que está orgulhosa de seu peso atual, porque além de estar dentro da faixa de peso que um médico chamaria de saudável, é um peso que ela consegue gerenciar – sem precisar apelar para restrições extremas.

 

CONCLUSÃO: 5 FATOS SOBRE PERDA DE PESO

1) O metabolismo diminui – a medida que ocorre a perda de peso, o metabolismo diminui, o que dificulta manterá manutenção desta perda.

2) O apetite muda – um estudo revela que conforme as pessoas perdem peso, elas comem 100 calorias a mais a cada quilo perdido.

3) Genes não controlam tudo – um estudo com 9 mil pessoas mostrou que ter um marcador genético relacionado ao ganho de peso não impede as pessoas de perderem peso.

4) Pessoas reagem de maneira diferente a mesma comida – pesquisadores em Israel revelaram que os níveis de açúcar no sangue das pessoas variavam bastante após comer os mesmos alimentos.

5) Você não precisa perder tanto peso quanto pensa – com a perda de apenas 10% do peso, as pessoas já podem notar mudanças na pressão arterial e no controle nos níveis de açúcar no sangue.

 

REFERÊNCIA:

SIFFERLIN, Alexandra. The Weight Loss Trap: Why Your Diet Isn’t Working. Time, May 25, 2017. Disponível em: <http://time.com/4793832/the-weight-loss-trap/&gt;. Acesso em: 10 jun. 2017.


Um comentário sobre “A armadilha da perda de peso: por que sua dieta não está funcionando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s