Desmistificando as dietas da moda

Por Muriel Hamilton Depin

 

O emagrecimento é um dos temas mais presentes na mídia, devido ao culto à beleza e também a falsa associação entre magreza e saúde. Frequentemente são divulgadas nos meios de comunicação novas dietas com a promessa de resultados milagrosos do tipo “elimine 8 quilos em sete dias”, “emagreça sem esforço” ou “desintoxique seu corpo de tudo o que há de ruim”1. Com isso, diversas pessoas (incluindo um número crescente de idosos) recorrem às dietas da moda visando a perda de peso em pouco tempo. Mas será que essas informações são válidas? Será que essas dietas cumprem o que propõem? Confira a seguir o que a ciência revela sobre as alegações de diversos tipos de dietas propagadas atualmente pela mídia.

 

DIETA SEM GLÚTEN

Pessoas com doença celíaca apresentam alergia ao glúten, uma proteína encontrada em cereais como trigo, centeio, cevada e seus subprodutos. Em celíacos, o consumo do glúten provoca inflamação no intestino, além de outros efeitos colaterais, podendo impedir a absorção de nutrientes. Logo, o tratamento da doença é a exclusão desta proteína por toda a vida.1

Há alguns anos, alegações não comprovadas de que o glúten faria mal à saúde de indivíduos não celíacos começaram a ser divulgadas pela na mídia, causando um terrorismo nutricional, e transformando o glúten no novo “vilão da alimentação”.1

Apesar de indícios do alívio de sintomas com a retirada do glúten da alimentação em indivíduos com doenças como a Síndrome do Intestino irritável, especialistas têm sido céticos quanto aos benefícios da dieta sem glúten.1

Gluten 4

Sobre uma possível inflamação intestinal causada pelo glúten não há pesquisas conclusivas que sustentem a recomendação de exclusão do glúten em não celíacos – a maioria foi feita em animais e com resultados divergentes.1

Não é certeza que alguém irá perder peso em uma dieta sem glúten, na verdade, acontece muitas vezes o oposto para os pacientes com doença celíaca.2 A exclusão do glúten pode levar ao consumo de uma alimentação hipercalórica, e, em consequência, ao sobrepeso secundário.3,4

Sendo assim, não há nenhuma evidência que indique benefícios significativos para a população em geral, já que as dietas sem glúten são claramente indicadas para pacientes com doença celíaca ou para pessoas com sensibilidade ao glúten.5

 

DIETA SEM LACTOSE1

A intolerância à lactose é uma deficiência na produção da enzima lactase, necessária para a digestão da lactose, açúcar contido em leite e derivados. Na deficiência dessa enzima, a lactose passa a ser fermentada no intestino, causando sintomas indesejáveis, como diarreia e distensão abdominal.

Em relação a uma possível inflamação intestinal causada pela lactose em pessoas que não são intolerantes à lactose não há pesquisas conclusivas que sustentem a recomendação de exclusão da lactose.

A retirada da lactose da alimentação pode favorecer a redução do peso corporal e do acúmulo de gordura devido à redução da ingestão total de calorias na dieta, não por causa da lactose em si.

Portanto, em indivíduos que não tenham intolerância a lactose, não é recomendada a exclusão de alimentos que a contenham.

 

DIETAS DETOX1

A dieta detox é composta por vários tipos de preparações, sucos, chás e coquetéis, e tem como objetivo eliminar toxinas e reduzir a produção de radicais livres – que são prejudiciais às células do organismo.

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Os benefícios desse tipo de dieta estão mais relacionados ao fato do aumento da ingestão de alimentos in natura, como frutas e hortaliças e minimamente processados, que são ricos em vitaminas, minerais, fibras e substâncias antioxidantes. No entanto, uma alimentação com grande variedade desses alimentos in natura, não necessariamente vinculados à dieta detox, já auxilia no controle do peso e na manutenção da saúde.

Quando o corpo é exposto a toxinas, os sistemas de defesas naturais do corpo humano são responsáveis pela eliminação dessas substâncias tóxicas do organismo – podendo ser modulados por nutrientes e compostos bioativos dos alimentos. Porém, ainda não é conhecido o efeito de alimentos com propriedades detox em estudos científicos.

Já as dietas detox comerciais merecem uma maior atenção porque podem trazer prejuízos para saúde, pelo baixo valor calórico e por serem pobres em proteína – além de efeitos adversos relatados pelos usuários dos produtos, como insônia, náusea e cefaleia.

Quando relacionadas ao uso de laxativos e enemas, podem levar a complicações como perfuração intestinal, distúrbios de eletrólitos e desidratação – e, em consequência, riscos de arritmias, convulsões, comas, e, até mesmo, óbito.

Os estudos científicos não foram realizados com alimentos, mas sim com suplementos industrializados visando à desintoxicação de substâncias químicas, apresentando ainda metodologia imprecisa e resultados controversos. Há evidências de que o coentro, uvas e vinho, maçãs, amoras e a casca e polpa de frutas cítricas tem propriedades quelantes naturais, podendo ser úteis para a eliminação de metais tóxicos do organismo.

Dessa forma, o uso da Dieta Detox é indicado apenas por especialistas em situações específicas de intoxicação por metais pesados – como alumínio, chumbo, cádmio.

 

DIETA ALCALINA1

            A dieta alcalina é baseada no pH dos alimentos, mas ainda não há definição de sua composição. Verificou-se que nela há uma maior quantidade de frutas e legumes, que têm maior teor de potássio e magnésio, resultando em um pH urinário mais alcalino. Entretanto, a falta de estudos dificulta o entendimento dos seus mecanismos de ação.

Seus possíveis benefícios estão relacionados com a melhoria na relação potássio/sódio, o que pode ser benéfico pra saúde óssea e diminuir a perda de massa muscular.

O organismos possui mecanismos reguladores de pH – como, por exemplo, o sistema tampão –  logo, a dieta alcalina não se faz necessária porque nosso corpo tem formas de colocar o pH em níveis adequados. Além disso, por não haver definição concreta de sua composição da, bem como estudos que comprovem seus efeitos, a recomendação fundamenta-se no consumo de frutas e hortaliças.

 

DIETA LOW CARB1

As dietas low carb são aquelas com baixo teor de carboidrato, indo daquelas altamente restritivas (onde nem frutas são permitidas) a restrições mais brandas. O que todas elas têm em comum é que não se sabe quais são os seus efeitos em longo prazo.

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Apesar de muitas pessoas declararem ter alcançado o objetivo de redução de peso, assim como várias outras dietas restritivas, ela não consegue ser mantida por longos períodos. Com o tempo, a adesão a esse tipo de dieta tende a diminuir porque ela é menos variada e mais restritiva que a low fat (dieta com baixo teor de gordura), sendo composta basicamente por proteína e gordura – e muitas vezes, com a exclusão de frutas e alguns vegetais. Uma pesquisa revelou que 75% dos indivíduos que adotam esse tipo de dieta retornam ao peso anterior.

Além disso, a adoção de dietas restritivas pode levar à cetoacidose (acidose metabólica), condição caracterizada por hiperglicemia, vômitos, dificuldade respiratória, entre outros sintomas. Isso pode acontecer porque o cérebro usa a glicose como principal substrato energético, e, para que as funções cerebrais sejam conservadas com a reduzida quantidade de carboidratos, o organismo ativa processos para o aumento da glicemia – como a glicogenólise e a gliconeogênese. A constante carência de carboidrato causa uma desregulação do metabolismo, favorecendo a hiperglicemia.

 

O PROBLEMA DAS DIETAS DA MODA1

Soluções rápidas para reduzir peso em geral não são saudáveis e desconsideram as características do indivíduo e o contexto em que vive. Mas a promessa de resultados rápidos motiva as pessoas a iniciarem esse tipo de dieta, que é divulgada pela mídia como sendo ideal para redução de peso para todas as pessoas – ignorando fatores importantes como idade, sexo, etnia, metabolismo, etc.

Geralmente, as pessoas não conseguem manter essas dietas por longos períodos, sendo abandonadas quando as mudanças radicais propostas não condizem com os hábitos e o cotidiano. Com isso, pode ocorrer ganho de peso – muitas vezes muito maior do que aquele perdido com a restrição.

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Possível efeito das dietas da moda

Além de não possuírem embasamento científico, as dietas da moda criam expectativas irreais quanto à velocidade e à quantidade de peso perdido; não promovem a reeducação alimentar e a adoção de outros hábitos de vida saudáveis; podem gerar deficiências nutricionais e riscos à saúde quando conduzidas por um longo período; e, de acordo com vários estudos, essa restrição de alimentos pode levar ao desenvolvimento de compulsão alimentar e transtornos alimentares.

 

CONCLUSÃO

As dietas da moda consideram somente a ingestão de nutrientes e calorias, desprezando as particularidades dos indivíduos e o contexto em que vivem. No entanto, uma alimentação saudável não se limita apenas ao consumo de nutrientes, ela envolve os próprios alimentos, as diversas possibilidades de combinações entre eles e suas formas de preparo, as características do modo de comer e as dimensões sociais e culturais das práticas alimentares.6

Sendo assim, a melhor opção para a saúde continua sendo uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, que respeite a cultura e os hábitos alimentares do indivíduo e promova a adoção de hábitos saudáveis de vida. Para isso, é importante ficar longe de modismos e práticas que prometem resultados a prazos muito curtos – pois quando o assunto é saúde, nada é imediato.

 

REFERÊNCIAS:

1 BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Desmistificando dúvidas sobre alimentação e nutrição: material de apoio para profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

2 CHANG, Kenneth. Gluten-Free, Whether You Need It or Not. New York: The New York Times, 04 feb. 2013.

3 HOLMES, G. K. T. et al. Malignancy in coeliac disease-effect of gluten free diet. Gut., v. 30, n. 3, pp. 333-338, 1989.

4 ANDREOLI, Cristiana Santos et al. Avaliação nutricional e consumo alimentar de pacientes com doença celíaca com e sem transgressão alimentar. Revista de Nutrição, Campinas, v. 26, n. 3, pp.301-311, maio/jun., 2013.

5 GAESSER, Glenn A.; ANGADI, Siddhartha S. Gluten-Free Diet: Imprudent Dietary Advice for the General Population? Journal of The Academy of Nutrition and Dietetics, EUA, v. 112, n. 9, pp. 1330-1333, set. 2012.

6 BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para a População Brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

 


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