A “vilanização” do glúten

Por Muriel Hamilton Depin e Aline Valmorbida

 

O glúten vem se tornado um ponto de discussão quando o assunto é alimentação saudável. Nos últimos anos a mídia vem atribuindo para ele diversos malefícios para a saúde humana, o que levou muitas pessoas (incluindo um número crescente de idosos) a retirarem o tradicional pão da mesa do café da manhã. Mas serão essas alegações verdadeiras? Confira a seguir o que a ciência revela sobre o assunto.

Gluten1

O glúten é a principal proteína presente no trigo, cevada e centeio, sendo formado predominantemente porliadinas e gluteninas. Essas duas frações do glúten juntas é que conferem a capacidade absortiva em água, viscosidade e elasticidade às massas preparadas com as farinhas desses cereais. 1,2

Por não ser totalmente digerido no aparelho gastrointestinal, o glúten pode causar complicações em situações adversas no organismo de algumas pessoas. As moléculas de gliadinas não digeridas podem atravessar a barreira epitelial intestinal e desencadear reações imunomediadas em casos de infecções intestinais, ou, quando a permeabilidade do intestino encontra-se aumentada, causando a famosa doença celíaca.2

A doença celíaca é uma doença sistêmica imunomediada desencadeada pelo consumo de glúten, em pessoas geneticamente predispostas, sendo caracterizada por um processo inflamatório na mucosa do intestino delgado, causando a atrofia das vilosidades intestinais, má absorção e várias manifestações clínicas.3 O tratamento consiste na completa exclusão do glúten da dieta, possibilitando a melhora na qualidade de vida e a redução dos futuros riscos de morbimortalidade.4 Esses riscos incluem complicações como anemia, infertilidade, osteoporose, e câncer – principalmente o linfoma intestinal.3

Há alguns anos vem acontecendo uma série de especulações de que o glúten faria mal à saúde de indivíduos não celíacos, e, por isso, deveria ser retirado da dieta. Alguns livros, como “Barriga de Trigo” e “A Dieta da Mente” propagam essa ideia, o acusando de ser a causa de várias condições como a deposição de gordura abdominal, picos de glicemia, aumento das mamas em homens, aumento do apetite, além de doenças graves, como problemas cardíacos e Alzheimer. Alegações não comprovadas como essas foram divulgadas por toda a mídia recentemente, contribuindo para o chamado terrorismo nutricional, e, transformando o glúten em um vilão da alimentação contemporânea.

Apesar de haver indícios que indivíduos com doenças como a síndrome do intestino irritável tenham alívio de seus sintomas após a retirada do glúten da dieta, especialistas têm sido céticos quanto aos benefícios da dieta sem glúten. Por exemplo, não é certeza que alguém irá perder peso em uma dieta sem glúten, na verdade, acontece muitas vezes o oposto para os pacientes com doença celíaca.5 Logo, a exclusão do glúten pode levar ao consumo de uma alimentação hipercalórica, e, em consequência, ao sobrepeso secundário.6,7

Em 2017 foi publicado um estudo de coorte que avaliou a associação da ingestão de glúten, durante 26 anos, com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Participaram da pesquisa 64 714 mulheres e 45 303 homens, sem histórico de doença coronária, que preencheram um questionário semiquantitativo de frequência alimentar de 131 itens em 1986 – o qual foi atualizado de quatro em quatro anos até 2010. No fim, concluiu-se que o consumo a longo prazo de glúten não foi associado ao risco dessas doenças, mas que a restrição do glúten pode resultar em um consumo reduzido de grãos integrais benéficos – o que pode afetar o risco cardiovascular. Portanto, a dieta sem glúten foi relacionada com um aumento no risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.9

Outro estudo, também de 2017, avaliou se o consumo de glúten afetaria a saúde em pessoas sem razões médicas aparentes para evitar o glúten. Foi descoberto que as dietas com maior quantidade de glúten foram associadas a um menor risco de desenvolver diabetes tipo 2. Os participantes do estudo que comiam menos glúten tendiam a comer menos fibras de cereais integrais, um fator de proteção conhecido para o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Dessa forma, as dietas de baixo teor de glúten foram relacionadas a um maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2.10

Há também uma noção de que os alimentos sem glúten são mais saudáveis, mas isso não é necessariamente uma verdade. Os produtos de panificação sem glúten geralmente contém menos fibra do que um à base de trigo e ainda contém a gordura e o açúcar que estão presentes também na versão convencional.5 Além disso, alimentos sem glúten também são menos propensos a ser enriquecidos com nutrientes porque as farinhas utilizadas nem sempre possuem a adição destes como a farinha de trigo – que geralmente é enriquecida com ferro e ácido fólico.8

Gluten Free

O fato é que a dieta sem glúten abriu uma fatia lucrativa na indústria de alimentos, assim como muitos produtos classificados e propagados como mais saudáveis que os convencionais com glúten. Desta forma, produtos sem açúcar, sem glúten e sem lactose têm preços diferenciados no mercado, tornando o termo saudável uma arma poderosa de venda.

O problema da exclusão do glúten da dieta sem necessidade é que não há nenhuma evidência que indique benefícios significativos para a população em geral, já que as dietas sem glúten são claramente indicadas para pacientes com doença celíaca ou para pessoas com sensibilidade ao glúten.11 Além disso, há alguns indícios que sugerem que uma dieta sem glúten pode afetar negativamente a saúde do intestino naqueles sem doença celíaca ou sensibilidade ao glúten.11,12 No entanto, se mesmo assim você ainda considerar o glúten um vilão, diminua seu consumo, mas não o exclua completamente da sua dieta. Afinal de contas, não é só de mocinhos que se constrói uma boa história.

 

REFERÊNCIAS

1 ARAÚJO, Halina Mayer Chaves et al. Doença celíaca, hábitos e práticas alimentares e qualidade de vida.Revista de Nutrição, Campinas, v.23, n.3, p.467-474, maio/jun., 2010.

2 PIMENTA, Ana et al. Sem Glúten, com saúde. Portugal, 2013. Disponível em: <http://riosemgluten.com/Sem_Gluten_Com_Saude_Portugal.pdf&gt;. Acesso em: 16 jan. 2015.

3 SILVA, Tatiana Sudbrack da Gama e; FURLANETTO, Tania Weber. Diagnóstico de doença celíaca em adultos. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 56, n. 1, p. 122-126, 2010.

4 SDEPANIAN, Vera Lucia et al. Doença celíaca: a evolução dos conhecimentos desde sua centenária descrição original até os dias atuais. Arquivos de Gastroenterologia, São Paulo, v. 36, n. 4, p. 244-258, 1999.

5 CHANG, Kenneth. Gluten-Free, Whether You Need It or Not. New York: The New York Times, 04 feb. 2013.

6 HOLMES, G. K. T. et al. Malignancy in coeliac disease-effect of gluten free diet. Gut., v. 30, n. 3, p.333-338, 1989.

7 ANDREOLI, Cristiana Santos et al. Avaliação nutricional e consumo alimentar de pacientes com doença celíaca com e sem transgressão alimentar. Revista de Nutrição, Campinas, v.26, n.3, p.301-311, maio/jun., 2013.

8 BRASIL. ANVISA. Resolução RDC nº 344, de 13 de dezembro de 2002. Aprova o Regulamento Técnico para a Fortificação das Farinhas de Trigo e das Farinhas de Milho com Ferro e Ácido Fólico. Diário Oficial da União: Brasília, 18 dez. 2002 .

9 LEBWOHL, Benjamin et al. Long term gluten consumption in adults without celiac disease and risk of coronary heart disease: prospective cohort study. BMJ, 357, pp.1-10, maio 2017.

10 ZONG, Geng et al. Associations of Gluten Intake With Type 2 Diabetes Risk and Weight Gain in Three Large Prospective Cohort Studies of US Men and Women. AHA EPI 2017, 09 mar. 2017. Disponível: <http://www.abstractsonline.com/pp8/#!/4299/presentation/3048&gt;. Acesso em: 08 jun. 2017.

11 GAESSER, Glenn A.; ANGADI, Siddhartha S. Gluten-Free Diet: Imprudent Dietary Advice for the General Population? Journal of The Academy of Nutrition and Dietetics, EUA, v. 112, n. 9, p. 1330-1333, set. 2012.

12 DE PALMA, Giada et al. Effects of a gluten-free diet on gut microbiota and immune function in healthy adult human subjects. British Journal of Nutrition, v. 102, n. 8, p. 1154-1160, 2009.


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